Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados

A inclusão de grupos vulnerabilizados na sociedade brasileira enfrenta desafios sociopolíticos complexos e multifacetados, enraizados em questões históricas, culturais e políticas. A disciplina de Diversidade e Inclusão busca compreender e atuar sobre essas realidades, que afetam desde crianças e adolescentes até povos indígenas, comunidades quilombolas, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e pessoas em situação de rua.

É crucial entender que a diversidade se refere à presença de diferenças dentro de um grupo social (como raça, etnia, gênero, orientação sexual, idade, religião, deficiência e classe socioeconômica), enquanto a inclusão é o processo ativo de criar ambientes onde todos são valorizados, respeitados, têm acesso igualitário a oportunidades e podem participar plenamente. A diversidade sem inclusão é insuficiente, pois a exclusão não é acidental, mas sim um reflexo de um modelo social que favorece determinados perfis em detrimento de outros.

Para entender esses desafios, o conceito de interseccionalidade, criado pela jurista Kimberlé Crenshaw em 1989, é fundamental. Ela analisa como diferentes aspectos da identidade (como raça, gênero, classe, orientação sexual, deficiência, idade) se combinam e afetam as experiências de discriminação e privilégio. Quanto mais marcadores sociais uma pessoa carrega, mais difícil se torna para ela atingir a igualdade plena, enfrentando múltiplas barreiras e desigualdades acumuladas. Políticas públicas que consideram essas múltiplas dimensões da identidade são mais eficazes na promoção da equidade.

A seguir, um resumo dos desafios sociopolíticos para a inclusão de diversos grupos vulnerabilizados:

Crianças e Adolescentes

  • Definição e Proteção Legal: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define criança como pessoa até 12 anos incompletos e adolescente entre 12 e 18 anos incompletos. A Constituição Federal de 1988 e o ECA foram marcos para reconhecê-los como sujeitos de direitos, adotando a doutrina da proteção integral e o princípio do melhor interesse.
  • Principais Desafios:
    • A violação de direitos (trabalho infantil, exploração sexual, violência doméstica, negligência, falta de acesso à justiça),
    • A desigualdade no acesso a políticas públicas (educação de qualidade, serviços de saúde especializados, políticas para crianças negras, indígenas, com deficiência e LGBTQIA+),
    • A pobreza e exclusão social (situação de rua, insegurança alimentar, moradia precária, violência urbana),
    • A invisibilidade nas decisões políticas (raramente ouvidos, fragilidade dos Conselhos Tutelares) e o
    • Desmonte de políticas de proteção (enfraquecimento do Sistema de Garantia de Direitos, cortes orçamentários). A era digital também apresenta riscos e violações específicas.

Idosos

  • Definição e Direitos: Considera-se pessoa idosa o indivíduo com 60 anos ou mais. O envelhecimento é um direito personalíssimo, e a proteção dos idosos é responsabilidade da família, comunidade, sociedade e poder público, com absoluta prioridade. Para maiores de 80 anos, a prioridade é especial.
  • Principais Desafios:
    • O idadismo (etarismo/ageísmo) é um desafio significativo, caracterizado pela desvalorização da velhice, exclusão no trabalho, mídia e saúde, e preconceito etário.
    • Violência (física, psicológica, patrimonial, institucional e negligência),
    • Pobreza e vulnerabilidade socioeconômica,
    • Baixo acesso a políticas públicas (desinformação, barreiras de acessibilidade física e digital) e
    • Isolamento social e afetivo.

É dever de todos prevenir e comunicar violações de direitos.

LGBTQIA+

  • Conceitos e Identidades: O universo LGBTQIA+ abrange lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros (travestis, transexuais, não binários), intersexo e assexuais/pansexuais. A identidade de gênero refere-se à forma como a pessoa se sente e se expressa, independentemente do sexo biológico, enquanto a orientação sexual descreve a atração afetiva e sexual.
  • Principais Desafios:
    • LGBTfobia (rejeição, medo, preconceito, discriminação, aversão, ódio e violência),
    • Invisibilidade nas políticas públicas e dados,
    • Violência (incluindo assassinatos, agressões),
    • Problemas de saúde mental (depressão, suicídio) devido à discriminação, e
    • Dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e reconhecimento da diversidade familiar.
  • Avanços Legais: O STF reconheceu a criminalização da homofobia e transfobia (equiparando-as ao racismo), o direito de transgêneros de alterar o registro civil sem cirurgia, e a união estável para casais do mesmo sexo. Normativas como a Política Nacional de Saúde Integral LGBT buscam ampliar o acesso a serviços de saúde, garantir o uso do nome social e combater o preconceito. Os Princípios de Yogyakarta fornecem um marco internacional para a aplicação dos direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero.

Pessoas com Deficiência

  • Terminologia e Conceito: O termo correto é “pessoa com deficiência“, que se refere a quem tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena na sociedade. A deficiência é vista pelo modelo social, que enfatiza a funcionalidade do indivíduo e a interação com barreiras, em vez de um modelo biológico.
  • Tipos de Barreiras: Incluem atitudinais (preconceito), urbanísticas, arquitetônicas, de transporte, de comunicação (linguagem, Libras, Braille) e tecnológicas.
  • Principais Desafios: O capacitismo (estrutural, atitudinal, linguístico, médico, institucional e na educação) é uma forma de discriminação que inferioriza, reforça estereótipos negativos e limita a participação plena. Outros desafios incluem invisibilização social, educação excludente, mercado de trabalho inacessível, acesso limitado a políticas públicas, desigualdade digital e subfinanciamento.
  • Avanços Legais: A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) assegura igualdade de oportunidades e proteção contra negligência, discriminação e violência. A avaliação da deficiência é biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos corporais, fatores socioambientais/psicológicos/pessoais, limitação de atividades e restrição de participação. O cordão de girassóis é o símbolo nacional de identificação de deficiências ocultas, sendo seu uso opcional. É dever de todos comunicar ameaças ou violações de direitos.

Pessoas em Situação de Rua

  • Definição: Grupo populacional heterogêneo que tem em comum a pobreza extrema, vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, e a inexistência de moradia convencional regular. Utilizam logradouros públicos, áreas degradadas ou unidades de acolhimento como moradia temporária ou provisória.
  • Principais Desafios:
  • Condições de trabalho precarizadas,
  • Problemas familiares como principal motivo para a situação de rua,
  • Falta de políticas públicas do Executivo e dependência de instituições religiosas assistencialistas,
  • Aporofobia (aversão a pessoas pobres),
  • Gentrificação (processo de transformação e supervalorização de uma determinada área da cidade, promovendo um aumento no custo de vida), e
  • Invisibilização social.
  • Avanços Legais: A Política Nacional para a População em Situação de Rua (Decreto n. 7.053/2009) busca garantir o acesso amplo, simplificado e seguro a serviços e programas de diversas políticas públicas. Seus princípios incluem respeito à dignidade da pessoa humana, direito à convivência familiar e comunitária, valorização da vida e cidadania, atendimento humanizado e universalizado, e respeito às diferenças de origem, raça, idade, nacionalidade, gênero, orientação sexual e religiosa, com atenção especial às pessoas com deficiência. O STF, através da ADPF 976, determinou a implementação de diretrizes e a realização de um censo para esta população.

Povos Indígenas e Comunidades Quilombolas

  • Quilombolas: São grupos étnicos predominantemente negros, rurais ou urbanos, que se autoidentificam por suas relações com a terra, parentesco, território, ancestralidade e práticas culturais próprias. A proteção do Estado alcança esses remanescentes, sua cultura e costumes.
  • Principais Desafios: A principal luta dos povos indígenas e quilombolas é a demarcação de terras e a regularização fundiária. Enfrentam também o garimpo ilegal, conflitos fundiários, racismo ambiental e a negligência do poder público.
  • Avanços Legais: A Constituição Federal de 1988 garante a proteção das manifestações culturais indígenas e afro-brasileiras. O STF decidiu que a tese do Marco Temporal é inconstitucional para terras indígenas, embora o Congresso Nacional tenha aprovado a Lei do Marco Temporal. A Lei de Cotas (Lei nº 14.723/2023) incluiu estudantes quilombolas entre os beneficiados pela reserva de vagas. O Programa Aquilomba Brasil (Decreto nº 11.447/2023) foi instituído para promover a transversalidade de gênero e raça nas políticas públicas destinadas à população quilombola, respeitando sua autodeterminação e integridade territorial.

Os desafios sociopolíticos para a inclusão desses grupos são o reflexo da distância entre o que está previsto na teoria e as condições reais de vida da população. A superação dessas desigualdades requer uma atuação integrada do Estado, da sociedade e da iniciativa privada, por meio de políticas públicas eficazes e ações afirmativas que visem à correção das desigualdades históricas e à promoção da igualdade de oportunidades para todos.

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