O estudo da despesa pública é um dos temas mais cobrados em concursos das áreas de controle, tribunais de contas, carreiras fiscais, orçamento público e administração financeira. Entender sua definição, classificações, estágios e implicações contábeis é fundamental para responder corretamente questões objetivas e dissertativas.
Conceito de Despesa Pública
A despesa pública, em sua essência, é o compromisso assumido para uma futura saída (pagamento) de dinheiro da conta única.
Em uma definição mais ampla, a despesa pública é o conjunto de gastos realizados pelo Estado no seu funcionamento, ou seja, a aplicação de recursos financeiros em bens e serviços destinados a satisfazer as necessidades coletivas. As despesas públicas municipais, por exemplo, referem-se aos gastos realizados pelos municípios no cumprimento de suas atribuições e na provisão de bens e serviços públicos.
Visões da Despesa Pública
A doutrina e a legislação apresentam duas formas principais de compreender a despesa pública:
1. Visão Ampla
Considera como despesa pública tanto as despesas orçamentárias quanto as extraorçamentárias.
2. Visão Restrita
Limita o conceito apenas às despesas orçamentárias, ou seja, aquelas previstas e autorizadas na Lei Orçamentária Anual (LOA).
Dentro dessa lógica, é essencial diferenciar os dois grandes grupos:
Despesa Orçamentária
- Depende de autorização legislativa para ser realizada.
- Consta na LOA ou em créditos adicionais.
- Representa o limite máximo de gastos do governo.
- Exemplo: pagamento de servidores, investimentos em infraestrutura, custeio de hospitais.
Despesa Extraorçamentária
- Não depende de autorização legislativa.
- Não aparece na LOA.
- Exemplo: devolução de cauções, pagamento de restos a pagar, resgate de operações de crédito por ARO.
Classificações da Despesa Pública
A classificação da despesa é essencial para o planejamento, execução e controle dos gastos governamentais. Ela permite identificar quem gasta, onde gasta, como gasta e com qual finalidade. De forma geral a identificação é feita por códigos.
As principais classificações são:
Classificação Qualitativa
A classificação qualitativa busca identificar a localização e a responsabilidade do gasto.
a) Por Esfera Orçamentária
Divide as despesas em três grandes orçamentos:
- Orçamento Fiscal – receitas e despesas gerais.
- Orçamento da Seguridade Social – saúde, previdência e assistência social.
- Orçamento de Investimento – investimentos de empresas estatais controladas pelo governo.
Identificação por código de 2 dígitos:

b) Institucional
Relaciona o gasto ao órgão e unidade responsável.
- Órgão Orçamentário: nível mais alto (ex.: Ministério da Educação).
- Unidade Orçamentária: subdivisão (ex.: Universidade Federal X).
Identificação com código de 5 dígitos:

c) Funcional
Indica a área de atuação governamental.
- Função – maior nível de agregação (ex: saúde, educação, segurança).
- Subfunção – detalha a função em áreas específicas.
Vale lembrar que, em casos especiais, pode ocorrer combinação entre funções e subfunções, exceto na função Encargos Especiais.
Classificação representada por código de 5 dígitos:

d) Estrutura Programática
É a classificação mais detalhada, organizada em um código de 12 dígitos, com a apresentação de três principais informações:
- Programa (4 primeiros dígitos): finalístico, de gestão ou operações especiais.
- Ação (4 dígitos seguintes): projeto, atividade ou operação especial.
- Localizador de Gasto (4 últimos dígitos): localização geográfica de realização da despesa.
Classificação Quantitativa
A classificação quantitativa relaciona-se à dimensão financeira da despesa.
a) Natureza da Despesa
É a mais importante para concursos, estruturada em até seis dígitos:
- Categoria Econômica:
- Despesas Correntes (DC) – manutenção da máquina pública.
- Despesas de Capital (DK) – formação de novos ativos ou amortização da dívida.
- Grupo de Natureza da Despesa (GND):
- Correntes: Pessoal e Encargos (1), Juros (2), Outras Correntes (3).
- Capital: Investimentos (4), Inversões Financeiras (5), Amortização da Dívida (6).
- Modalidade de Aplicação: indica se os recursos são aplicados diretamente ou repassados.
- Elemento de Despesa: identifica o objeto do gasto (ex: material de consumo, obras, diárias).
b) Outros Identificadores
- IDUSO (Identificador de Uso) – Código que especifica a aplicação dos recursos, como, por exemplo, se são destinados a contrapartidas de empréstimos ou doações.
- Fonte de Recursos – Código que identifica o grupo e a especificação dos recursos (exercício atual, anteriores, operações de crédito).
- IDOC (Identificador de Doação ou Operação de Crédito) – Código numérico usado para identificar se o recurso provém de uma doação ou operação de crédito.
- Dotação Orçamentária – limite máximo autorizado.
Classificação Contábil
Essa classificação considera o impacto no Patrimônio Líquido (PL) da entidade pública.
- Despesa Orçamentária Efetiva – reduz o patrimônio líquido (ex: despesas correntes e transferências de capital).
- Despesa Orçamentária Não Efetiva – não reduz o patrimônio líquido (ex: aquisição de bens de capital, suprimento de fundos).
Classificação por Resultado Primário
Esta classificação é utilizada para a apuração do Resultado Primário (ou resultado fiscal primário), que é a comparação entre as receitas primárias e as despesas primárias, excluindo as receitas e despesas financeiras. Esta classificação é aplicada exclusivamente para a União.
- Despesas Primárias – São os gastos realizados pelo governo para prover bens e serviços públicos, como custeio da máquina pública, salários, aposentadorias, obras e políticas públicas. São incluídas no cálculo do resultado primário.
- Despesas Financeiras – São as despesas relacionadas ao pagamento da dívida pública, como juros e encargos da dívida. Essas despesas são excluídas do cálculo do resultado primário.
Se a despesa primária for maior que a receita primária, o resultado é um déficit primário.
Estágios da Despesa Pública
A despesa orçamentária segue um ciclo estruturado, previsto na Lei 4.320/1964. Esse ciclo é dividido em duas grandes etapas principais: planejamento e execução.
O controle é uma etapa que ocorre durante todo o tempo do processo (prévio, concomitante e posterior).
Etapa de Planejamento
Envolve todas as ações anteriores à execução:
- Fixação da Despesa
Definição dos limites de gasto na Lei Orçamentária Anual (LOA). - Descentralização de Crédito
Movimentação de créditos entre órgãos, sem transferência de dinheiro. Pode ocorrer por Destaque (entre órgãos) ou Provisão (dentro de um mesmo órgão). - Programação Orçamentária e Financeira
Definição do cronograma de desembolso. Pode haver limitação de empenho quando a arrecadação não comporta as metas fiscais. - Licitação e Contratação
Etapa administrativa para selecionar fornecedores ou prestadores de serviço.
Etapa de Execução
A execução da despesa se divide em três estágios principais:
1. Empenho
- Reserva da dotação orçamentária para determinado fim.
- Formalizado por Nota de Empenho (NE).
- Tipos: Ordinário, Global e Estimativo.
2. Liquidação
- Verificação do direito do credor.
- Confere se o serviço foi prestado ou o bem entregue.
- Baseada em contrato, nota de empenho e comprovantes.
3. Pagamento
- Último estágio da despesa.
- Só ocorre após a liquidação.
- Efetuado por ordem bancária, cheque ou crédito em conta.
O estudo da despesa pública exige atenção a conceitos, classificações e estágios. Em concursos, as bancas exploram desde definições básicas até questões complexas envolvendo natureza da despesa, resultado primário e diferenças entre orçamentário e extraorçamentário.
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